Dentre os principais transtornos psiquiátricos existentes, a esquizofrenia talvez seja o mais complexo, pois se caracteriza por alterações cerebrais no paciente que podem ser brutais a ponto do tratamento pouco ajudar a controlar o quadro.
Embora a psiquiatria moderna tenda a olhar para o transtorno como um espectro, classicamente existem quatro tipos de esquizofrenia, cada qual com suas particularidades e intensidades distintas.
De acordo com o psiquiatra Miguel Boarati, os quatro tipos clássicos de esquizofrenia são: paranoide, hebefrênica, catatônica e indiferenciada. Entenda as diferenças:
Esquizofrenia Paranoide: “A mais comum é a paranoide, que se caracteriza por predominância de delírios persecutórios e bizarros, além de alucinações”, explica o médico. Ele frisa ainda que, apesar da esquizofrenia paranoide ser considerada menos grave, ela não é mais branda. “A diferença é que conta com um padrão de resposta ao tratamento bastante satisfatório”.
Esquizofrenia Hebefrênica (ou Desorganizada): É citada pelo especialista como a mais grave e com o tratamento mais difícil. É “marcada por isolamento social, embotamento afetivo e deterioração global”.
Esquizofrenia Catatônica: “Na catatônica, o paciente fica parado, com olhar perdido e flexibilidade cérea (rigidez muscular onde o corpo mantém posições moldadas por outros), sendo esta também bastante grave”, detalha Boarati.
Esquizofrenia Indiferenciada: “Já a indiferenciada agrupa características presentes em todos os outros tipos”, sem que uma predomine o suficiente para fechar um diagnóstico específico.
A necessidade de categorizar a esquizofrenia surgiu no final do século XIX e início do século XX, impulsionada por psiquiatras pioneiros como Emil Kraepelin e Eugen Bleuler.
Kraepelin foi o primeiro a diferenciar o que ele chamava de “demência precoce” (devido ao rápido declínio cognitivo) de outros transtornos de humor. Posteriormente, Bleuler cunhou o termo “esquizofrenia” (mente dividida) e observou que os pacientes não apresentavam sempre os mesmos sintomas.
Para facilitar a comunicação entre médicos e definir prognósticos (previsões de melhora), foram criados os subtipos (paranoide, catatônica, etc.). Essa divisão foi fundamental por décadas para guiar a escolha de medicamentos e estratégias de internação.
Apesar de os termos “paranoide” ou “catatônica” ainda serem muito usados na prática clínica para descrever o estado do paciente — como feito pelo Dr. Miguel Boarati —, os manuais de diagnóstico mais recentes (como o DSM-5) mudaram essa abordagem.
Atualmente, a ciência entende a esquizofrenia como um espectro. A divisão rígida caiu em desuso oficial por dois motivos principais:
Sintomas mistos: a maioria dos pacientes apresentava sintomas de vários tipos ao mesmo tempo, dificultando uma classificação única.
Instabilidade: o tipo de esquizofrenia de um paciente podia mudar ao longo da vida (ex: começar paranoide e evoluir para uma desorganização hebefrênica).
Hoje, o foco é avaliar a intensidade dos sintomas (gravidade dos delírios, nível de desorganização, catatonia) para personalizar o tratamento.
| Subtipo | Principal característica | Resposta ao tratamento |
| Paranoide | Delírios de perseguição e alucinações auditivas. Preservação relativa da cognição. | Boa. Geralmente responde bem aos antipsicóticos. |
| Hebefrênica | Comportamento infantilizado, fala desconexa, afeto inadequado (rir em momentos tristes). | Baixa. Difícil controle e rápida deterioração cognitiva. |
| Catatônica | Imobilidade motora extrema, mutismo ou agitação excessiva sem propósito. | Variável. Exige intervenção rápida (medicamentosa ou eletroconvulsoterapia). |
| Indiferenciada | Mistura de sintomas dos outros tipos (alucinações + desorganização). | Variável. Depende de qual sintoma é predominante no momento. |
Independentemente da classificação, o tratamento farmacológico é a base do controle da doença. O Dr. Miguel alerta que a esquizofrenia hebefrênica, por exemplo, possui uma resposta muitas vezes insuficiente ao tratamento medicamentoso e de reabilitação, “além de evoluir mais frequentemente para um processo de deterioração cognitiva”.
Além disso, é possível que o paciente desenvolva outras doenças em função da esquizofrenia. “Após um surto psicótico podem surgir quadros depressivos, manifestação de dependência química e ansiedade”.
Em relação ao tratamento do distúrbio, a orientação é que haja uma associação entre remédio controlado e terapia psicossocial.
“Mas em nenhum caso o paciente com esquizofrenia poderá ficar sem o tratamento medicamentoso, pois do contrário ele terá novos surtos psicóticos e a doença irá progredir. O tratamento medicamentoso não é o único a ser realizado, mas ele é essencial”, conclui.
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